BIBLIOTECA JOSÉ WASTH RODRIGUES


.. José Wasth Rodrigues foi uma notabilíssima personalidade nacional, muito pouco conhecida, desafortunadamente, em nosso Exército. Entretanto, é imenso o lavor de sua fecunda produção artística, de robusto conteúdo cívico, em benefício da Força Terrestre, como adiante veremos.

                   Nascido em São Paulo-SP, em 19 de março de 1891, dedicou-se, entre outros misteres, ao longo de sua profícua existência, à pintura, à heráldica, à escultura, à medalhística, à história militar, às tradições, enfim.

                   Consagrados pintores como Victor Meirelles, Oscar Pereira da Silva e José Maria Medeiros foram mestres de José Wasth Rodrigues, cuja aplicação à pintura foi tanta, que ele conseguiu uma bolsa de estudos na França, tendo freqüentado, com raro brilhantismo, a Escola de Belas-Artes de Paris e a Academia Julien.

                   Ao retornar da França, em 1914, Wasth Rodrigues dedicou-se à pintura de óleos e aquarelas com motivos tão somente brasileiros, posto que era um nacionalista orgulhoso e convicto. À época, juntamente com o emérito historiador Gustavo Barroso, iniciou um projeto acerca de uniformes do Exército. Os afanosos trabalhos redundaram em uma primorosa obra histórico-militar, publicada em Paris, de título "Uniformes do Exército Brasileiro, 1730-1922", com texto de Gustavo Barroso, contendo mais de (200) duzentas aquarelas, obra essa, ainda hoje, única e referencial para pesquisadores que se dedicam ao estudo da indumentária militar brasileira. Acrescente-se, que o então Cel José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque - "o Idealizador da Academia Militar das Agulhas Negras" - quando comandante, no início da década de 30, da Escola Militar do Realengo, inspirou-se no belo trabalho histórico e iconográfico,  da lavra de Gustavo Barroso e Wasth Rodrigues, para a criação de novos uniformes destinados aos então alunos da Escola, que logo seriam galardoados com o título de "Cadetes", em decorrência de ingente esforço daquele insigne Comandante. A propósito, convém assinalar que José Pessoa implantou, na Escola Militar, uma nova ideologia de formação, para os futuros Oficiais, prenhe de simbolismo, respeitadora das tradições, voltada para as lides castrenses. Educador, no grande sentido da palavra, José Pessoa soube encontrar o justo ponto de equilíbrio entre o ensino fundamental e o técnico-profissional, conciliando as duas correntes até então desavindas: a "prática-tarimbeira" e a "teórico-bacharelesca", esta, de fundo positivista.

                   Assume especial relevo o fato de que ao adotar para os Cadetes, o porte do espadim, o uso da barretina, do brasão de armas, do estandarte heráldico, dos novos uniformes, etc, o Comandante da Escola Militar do Realengo instituía uma mística assaz singular, de efeito altamente multiplicador, para todo o Exército. Os uniformes, até hoje envergados pelos Cadetes da AMAN, foram desenhados por José Wasth Rodrigues, de quem José Pessoa era grande admirador, sendo idênticos aos dos batalhões de 1851/52, quando das Campanhas no Uruguai e Argentina, caracterizando, no dizer daquele inesquecível Soldado, "o liame entre o Exército Imperial e o Republicano", ambos um só Exército, cujas raízes estão fincadas nos montes Guararapes - berço da nacionalidade e do Exército Brasileiro.

..................Além do mencionado livro "Uniformes do Exército Brasileiro, 1730-1922", José Wasth Rodrigues foi autor de dois alentados trabalhos: "Uniformes e Armas" e "Dicionário Histórico-Militar", as suas duas obras-primas. O primeiro deles, em 90 (noventa) volumes, contém 1600 (mil e seiscentas) páginas e cerca de 500 (quinhentas) ilustrações de aquarelas, desenhadas e pintadas à mão, com o auxílio de sua filha Rachel.

                

           ..O segundo registra inúmeros termos militares, utilizados pelas Forças Armadas, desde prístinos tempos,distribuídos em 26 (vinte e seis) volumes. Tal a importância dessa produção literária e histórico-militar, que o Exército houve por bem escolhê-la para publicação, de forma ampliada e atualizada, no presente ano, como um dos projetos da Força para as comemorações do 5º centenário do descobrimento do Brasil. A tarefa encontra-se em fase adiantada de execução na Biblioteca do Exército.

                 Diga-se que esse fabuloso acervo documental foi doado ao C Doc Ex, pela filha de Wasth Rodrigues, a sra. Rachel Otávia Wasth Rodrigues Bertini, recentemente falecida, não havendo, em nenhum outro local, exemplares das preciosidades, linhas atrás referidas.

                 Além dessas verdadeiras "obras de Santa Engrácia", que lhe consumiram anos seguidos de incansável labor, José Wasth Rodrigues deixou, à posteridade, muitas outras, também de grande fôlego, como inumeráveis "ex-libris" para bibliófilos e colecionadores. Outrossim, ele publicou em jornais, revistas especializadas, folhetos, etc, excepcionais trabalhos, máxime os referentes à heráldica, tendo sido considerado pelo poeta Carlos Drumond de Andrade, "o maior heraldista brasileiro".

                 Hoje, museus, centros de documentação, arquivos, bibliotecas, entidades culturais oficiais e particulares, colecionadores, etc, detêm parte do invejável acervo legado por aquele invulgar artista, de vasta e poliédrica cultura; destaque-se o Museu do Ipiranga - São Paulo-SP, onde se encontra a maior parte das coleções histórico-pictóricas de José Wasth Rodrigues, em especial o belo brasão do estado de São Paulo, no qual, em listel, está inscrito o lema "Pro Brasilia fiant eximia".

                 O Centro de Documentação do Exército, depositário de parcela substancial da memória da Força Terrestre, propôs, em novembro de 1994, o nome de José Wasth Rodrigues para a sua biblioteca, a qual, hoje, ostenta a augusta denominação histórica de "Biblioteca José Wasth Rodrigues". Tal fato é motivo de grande ufania para os integrantes do Centro, local venerável onde se custodia porção muito significativa da herança cultural do grande patriota que foi José Wasth Rodrigues. Tão patriota, que não admitia, como nos declarou a sua filha Rachel, a pronúncia, à inglesa, do sobrenome Wasth, o qual deveria ser pronunciado como palavra portuguesa, ou seja, "vast"...

                  Destarte, com a denominação concedida à biblioteca do C Doc Ex, cremos que a Instituição resgatou, de forma superlativa, de um injusto semi-anonimato, não condizente com os tantos e tamanhos serviços por ele prestados ao Exército e ao Brasil, a memória de José Wasth Rodrigues, este pró-homem das artes nacionais, que veio a falecer, no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1959.

                   Nesta triste e atual fase por que passa o Brasil, quando nos assola um cruel e desnacionalizante colonialismo (ou "satelitismo") cultural, que o edificante exemplo a nós legado, por José Wasth Rodrigues, esse vulto exponencial das belas-artes brasileiras, sirva de luzeiro a todos que buscam cultuar o passado, na glorificação de seus fastos históricos, sob a inspiração dos memoráveis versos de Luiz de Camões:

"Não me mandas contar

Estranha história,

Mas mandas-me louvar

Dos meus a glória"

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